quinta-feira, 20 de outubro de 2011

PRÓLOGO





Os relâmpagos resplandeciam sobre o céu fantasmagórico parisiense. O brilho de azul intenso ultrapassava a majestosa rosácea superior da Catedral de Notre Dame, intercalando-se com as sombras obscuras que se alastravam no interior da santificada igreja símbolo da França. O vento sibilava uivando em frente ao Portal do Julgamento, rebatendo a porta de madeira maciça com força. As gárgulas no alto das torres gêmeas escoavam a água que caía deliberadamente sobre o imensurável vitral, enquanto isso, a estátua de Virgem Maria com o Menino no colo parecia chorar. Dois anjos esculpidos a cercavam, mas não pareciam surtir honestidade com seus sorrisos já gastos entre os séculos.
Na torre sul do portal ocidental de Notre Dame, o sino Emmanuel parecia surtir sua música com calma, porém, não havia data especial ou alguém para que o instrumento de treze toneladas começasse a tocar. Era como se o antigo Emmanuel já tivesse criado vida própria, podendo manifestar seus sentimentos durante a fria e solitária noite da Praça Parvis.
Os mais atentos conseguiram captar a música sutil provinda do legendário órgão localizado em frente à rosácea ocidental. Tal fato era místico, talvez um tanto fantasmagórico, levando em consideração que já passava das três da madrugada naquele período sórdido de tempestade. O luar compunha juntamente à melodia gótica que saía dos trinta e dois tubos que montavam o incrível órgão, penetrando sua benevolência pelo manto sagrado do vitral de cores incandescentes.
Além do Portal do Julgamento, caminhando em direção ao magnífico altar de Notre Dame, estava um garoto de pele impecável e olhos cor de mel. Seus cabelos negros caíam-lhe sobre as pálpebras, molhados, testando sua paciência conforme seus batimentos cardíacos agoniados aceleravam dentro de sua caixa torácica. Ele mexia nos fios capilares que o atrapalhavam constantemente, sendo possível observar a luva preta de couro que cobria a mão direita. Vestia uma jaqueta preta, junto a uma camisa branca de aparência suja e rasgada; nos pés um tênis de cor neutra que harmonizava com a calça de mesma cor da jaqueta de couro. A face, mesmo que desprovida de qualquer acne típica da adolescência, possuía sangue escorrendo de um profundo corte recente logo abaixo do olho direito, ele cambaleava para seguir seu caminho até o altar, sentindo a dor dilatando suas entranhas.
Acima do jovem menino, as abóbodas com arcos ogivais em tramo j russo escureciam o recinto, possuindo apenas mínimos lances de luz refletidos pelos lóbulos e vitrais encaixados nas paredes antigas. Nas laterais do extenso piso de cor indefinida durante a penumbra, fileiras de assentos de madeira polida estendiam-se até a fachada do altar principal de Notre Dame. Do meio da Catedral, o garoto conseguia avistar uma figura indistinguível de gênero próximo a enorme cruz sobre o local de cerimônias.
A sagrada cruz de cor de ouro nobre flamejava em cima do altar. Focos de luz provindos de poucos candelabros acesos deixavam a beleza da estátua logo à frente da cruz a vista, possibilitando que os detalhes fossem observados com certa clareza. A cor de marfim das figuras era tão alva quanto à lua, enriquecendo a genuinidade da peça esculpida com perfeição. A escultura era uma monumental mulher de mãos abertas, com uma expressão regozijo, aparentando dar as boas vindas àqueles que entravam em seu lar.  Alguns querubins pareciam estar ao seu lado, tal como outros arcanjos espalhados pelo mesmo ambiente. Logo abaixo da figura feminina de aspecto beatificado, estava uma enorme arca que a sustentava, com adornos e desenhos entalhados no dourado e marfim, iluminado por três ou quatro velas acesas. Alguns degraus elevavam-se a frente junto a uma coroa de flores que parecia perder vida ao manter contato com o misterioso ser humano que estava disposto em pé bem próximo à cruz.
Os três vitrais na nave do altar soltavam faíscas de brilhos intensos vindos dos relâmpagos, os trovões por sua vez eram ouvidos nitidamente e ecoavam no imenso saguão da Catedral. A luz vinda das três pequenas rosáceas deixava em foco a criatura de estatura mediana que pairava próximo à santa cruz. Podia-se reparar que era um ser masculino, devido aos ombros um tanto mais largos, tal como em razão de suas mãos maiores e fortes. Não era possível distinguir sua idade, muito menos origem ou credo, vestia uma máscara de cor preta com fechos prateados e amarelo-queimados. Nos orifícios dos olhos, o disfarce no rosto possuía pequenas cordinhas velhas que impediam notar a cor da íris do menino. As vestes longas, provavelmente larapiadas de um sedentário beato de Notre Dame, enrolavam-se em camadas de branco e vermelho, acompanhando a coloração dos cabelos ruivos e arrepiados do misterioso ser que aguardava algo grandioso no altar.
Ele fitava o garoto de cabelos pretos que vinha em sua direção com desdém. Um pequeno sorriso esboçou na sua face omitida pela sinuosa máscara veneziana. A sua vítima vinha aos tropeços, ele parecia estar debilitado, o que dava prazer explícito ao jovem de vestes papais.
Sete trovões em sequência deram seus estrondos sobre as abóbodas de Notre Dame, como se exultassem os sete pecados capitais. As heresias e profanações, mesmo distantes de um local tão abençoado e mirado por Deus, pareciam de fato estarem presentes naquela noite de tanto horror. Algo muito ruim estava prestes a acontecer, ao menos, era o que anunciava o sino Emmanuel que naquele momento provocava a fúria nos céus de Paris.
A figura mascarada deslizou sua mão com delicadeza sobre um cálice de vinho que deixara de lado sobre a arca que sustentava a estátua de Nossa Senhora. Erguendo a bebida em reverência ao garoto que subia os pequenos degraus, soltou de seus lábios palavras de compaixão com tons negros de um sublime pecador:
- Ao Iniciado! – bradou – Bienvenue Saint de La lumière.
O garoto de cabelos negros segurou suas mãos vestidas de luvas de couro com força. Sua vontade era voar na direção daquela face omitida, socando-o até a morte deixando o sangue fétido daquela criatura escorrer sobre o altar de Notre Dame, porém, seus conceitos falavam mais alto, ele não poderia deixar tudo para trás naquele momento, mesmo que as circunstâncias pedissem...
- Você está sozinho, L’ira ? – indagou o garoto de cabelos negros com ódio e repugnância.
O mascarado riu para o alto, ecoando sua risada maléfica junto ao som metálico de Emmanuel no alto da Catedral:
- Obviamente, mon chéri. Exatamente como tratamos, estou sozinho – ele virou o cálice de vinho sobre seus lábios secos – Ótima safra! Os franceses realmente sabem o que é bom em La vie, não é verdade?
- L’ira, não me interessa a safra, a qualidade, ou qualquer merda provinda de sua boca. Você não sabe pelo o que eu tive de passar para chegar até aqui, para exercer minha tarefa e partir disso tudo de uma vez só...
-Calma, meu caro, calma! Vou lhe entregar o prometido, assim que você cumprir a sua promessa. O Consiglio dei beati aprovou a liberação do seu pedido, ela já está aqui...
Com a entonação de sua voz dez vezes mais grossa, o jovem de cabelos negros exaltou sua fúria:
- Mostre-a agora! Onde ela está?! Só cumprirei a promessa se ela estiver aqui, somente!
Dando um levíssimo estalar de dedos, o homem mascarado fez algo irromper das tripas da escuridão da abóboda celeste do ábside. Amarrado fortemente em uma corda de farpas lineares, o corpo de uma garota desceu preso pelos seus pulsos frágeis e sensíveis. Ela estava nua, com os seios não tão fartos a mostra, a aureola das mamas era de um rosa frágil e inocente, tão puro quantos os anjos do Senhor. Seu tom de pele alvo destacava o cabelo liso, sedoso, de cor vermelho rubí flamejante, que descia do seu coro cabeludo até o ventre ainda singelo.
Ela adormecia com uma máscara de gás cobrindo-lhe a boca e o nariz, deixando apenas os olhos curvelíneos e fechados a mostra. O garoto deixou lágrimas percorrerem sua face ao observar a bela garota naquele estado de tortura.
- Angel... – sussurrou remoendo a tristeza amarga.
            - Contente, meu caro? – perguntou o homem mascarado – Hora de começar o show e irmos ao que interessa. Ansioso?
            O ser de tons e aspectos malévolos caminhou até a parte omitida da cruz dourada do exuberante altar. Com as duas mãos, pressionou a linha retilínea do objeto para baixo, com força, fazendo o piso tremer por alguns instantes. A estátua de Nossa Senhora continuou intacta, vibrando apenas com o leve tremor. A arca dourada se moveu para o lado, pesada, dando lugar a uma maca coberta por um finíssimo lençol branco. Pelo que aparentava, havia um corpo deitado sobre a cama de ferro.
            O coração do garoto disparou ao ver aquele acontecimento diante de seus olhos. Havia um corpo ali, que ele sabia perfeitamente a quem havia pertencido – pois sua alma já havia migrado há milênios de seu portador. Era uma tarefa arriscada, mas somente a realização desta salvaria o amor de sua vida, e nada jamais no mundo poderia impedir a ascensão do amor.
            Ele retirou as luvas molhadas, atacando-as nos candelabros, deixando que o couro corroído queimasse. O sangue congelou, as células pareciam mortas conforme suas mãos tremeluziam. Coração palpitante, cérebro pulsante. O suor frio provindo das profundezas de sua alma escorreu pelo pescoço, deixando-o cada vez mais agoniado. O homem mascarado puxou o lençol que cobria o corpo falecido, o garoto de cabelos pretos fechou os olhos cor de mel sentindo a aflição o atingindo. Suas mãos caminharam deliberadamente em direção ao morto pálido e esquelético...
            O Portal do Julgamento fez um estrondo junto ao relâmpago que rachou o céu de Paris. Notre Dame emergiu junto às sombras, vociferando em fúria com a incondulência exercida naquele instante:
            - HERESIA! – gritou uma multidão do lado de fora da Catedral, vários homens haviam arrombado a porta maciça, apontando com crucifixos em direção ao garoto que tremia sobre o altar.
            - O ATO DIVINO! HERESIA! O CORPO DO VERDADEIRO INICIADO! HERESIA!
            O garoto sentiu a morte o observando de longe, seu último pensamento nem sequer parecia ter existido. Em fração de segundos, a única coisa que pode ouvir, fora a música provinda de Emmanuel.

FIM DO PRÓLOGO
 DIVINO
DELSON G. S NETO 

8 comentários:

  1. Se isso é escrever mal, porrã, que quer dizer bem né? Adorei tudo tudo tudo!

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  2. Awwwn Obrigado <3 SIGNIFICA MUUUITO PRA MIM!

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  3. E você conseguiu. Conseguiu me deixar sem palavras. Uau! Sabia! Eu disse mesmo antes de ler que era brilhante e acertei. Hehe muito bom mesmo =) quero mais! Fiquei curiosa

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  4. MUUUITO OBRIGADO DAFNE ♥ é MUITO importante saber que gostou! Pode ficar ligada que logo terá mais *-*

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  5. Quero maaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaais! Perfeito, não poderia fazer uma descrição melhor. Amei, amei, que orgulho <3

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  6. nossa, muito boa a história, to curiosa pra saber o que vem depois *-*

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  7. carcaaaaaaaas ! essa hst tem vocabulario e um conteudo fantastico, e olha q foi so o prologo ! Da uma curiosidade pq vc fica tipo "hã ?o.o EXIJO UMA EXPLICAÇAO !" mais na vrd vc qr é mais u.u kkk meu caso viu ? da pra me sentir dentro da hst e é mt real msm o.o é incrivel e impressionante <3 gostei mt msm !cara,que perfeita *perplexa* by:glenda

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